Mulher, mais de 40, mãe de dois adolescentes, em constante conflito e mutação... uma fazedora de sonhos... uma colecionadora de memórias... Frase que me define hoje: "Justamente quando a lagarta pensou que tudo houvesse terminado... ela virou uma borboleta"


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Um Beijo Para Brindar... (um caminho sem volta)

Já não faço mais tanto esforço para compreender.... compreender você me parece mais que um exercício de paciência... embora eu viva aquela vida comum em que amanheço e anoiteço com o relógio marcado... ainda que meus dias funcionem de acordo com os óbvios de levantar, trabalhar, pagar as contas e voltar para casa... ainda assim, não me esforço mais para tentar compreender.... esse desprendimento de energia, muito comum aos que têm sede, é bem menor hoje em dia... por uma questão muito simples que não envolve o secar, apenas a administrar melhor a energia, a atenção, as águas.... já não me pergunto como chegamos até aqui.... acho que eu não sei.... poderia até dizer que a falta de opção nos afunilaram no bar menos quente numa noite mais quente... e então a conversa... ou a bebida... ou os dois juntos, vai saber, dos encontros, das surpresas, das afinidades da vida... daquilo que é afinado ou não... nos reuniu num balcão dessa louca vida....


Tanto tempo... tantas músicas... tantos papos depois... algumas referências em comum... daquelas fáceis de livros e filmes e diretores e canções, que nos esbarra em boa parte...  de quem aprecia o que é bom... e, talvez, algumas outras mais curiosas... efeitos do whisky ou da fumaça de cigarros ou da atmosfera da madrugada... falamos muita besteira para preencher a noite e despertar a atenção... é provável que eu nunca tenha dito que o meu melhor amor começou de um silêncio desconfortável... de um profundo silêncio de olhar nos olhos e não saber o que dizer ou onde colocar as mãos?... nasceu assim, de um observar de causar arrepio na nuca... do detalhe que muitas vezes acende... a ponta de um sorriso... a maneira de acender o cigarro... a ironia fina de canto de boca... a inteligência simples que abre as portas... na ausência de palavras... entregue ao momento... muitas vezes me peguei pensando “agora não dá mais para voltar” ... e segui adiante porque seguir é dos dias.... é de mim... então, eu proponho um beijo... um beijo para iluminar a noite... para certificar as intenções... para romper as expectativas... um beijo, enfim... um beijo para brindar o encontro.... para refrescar o calor... para elevar o termômetro... para que possamos sair daqui e prolongar o encontro em outro ambiente mais fresco e menos barulhento... ou para ficarmos aqui... e criarmos o nosso silêncio entre gemidos e sons...

 

Eu desisti de compreender... e confesso que desconfio de quem exibe certezas e conceitos.... desconfio de gente que declama verdades... de gente que não se permite a interrogação... o não saber, o aprender o que já é, mais uma vez... é como poder usar a mesma camisa branca de hoje em outra ocasião, em outra noite, em outra conversa... me vestir do óbvio para não saber...  agora não dá mais para voltar... até porque... não quero mais voltar...

 



Escrito por L.C. às 23h53
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